Imagine que você está terminando seu expediente em um habitat humano em um exoplaneta distante. O dia está chegando ao fim, você precisa acelerar o passo, mas, justamente quando a luz começa a diminuir, tudo volta a clarear. Você olha para cima e lá está o sol nascendo de novo. Quer dizer, o seu segundo sol. Na hora, você pode até se culpar por não ter checado o cronograma de nascer e pôr do sol, mas, no fim das contas, ganha um tempo extra para trabalhar antes do jantar.

Embora esse cenário pareça coisa de filme ou algo restrito a séculos de colonização espacial no futuro, uma equipe internacional de cientistas está trabalhando justamente para entender esse tipo de mundo hoje. São os chamados planetas circumbinários (CBPs), que orbitam duas estrelas em vez de uma. Em um estudo recente publicado na Monthly Notices of the Royal Astronomical Society, pesquisadores dos Estados Unidos e da Austrália trouxeram descobertas que nos aproximam de entender se esses lugares peculiares poderiam abrigar vida.

Para chegar a esses resultados, a equipe analisou dados do TESS (Transiting Exoplanet Survey Satellite), da NASA, buscando por novos sinais. O trunfo aqui não foi o método tradicional de trânsito, aquele em que se mede a queda no brilho da estrela quando um planeta passa à frente dela. Para CBPs, isso é complicado, porque o planeta precisaria se alinhar perfeitamente à frente das duas estrelas simultaneamente. Em vez disso, os cientistas utilizaram a precessão apsidal: uma técnica que mede a torção gradual na órbita do planeta, causada pela influência gravitacional que ele exerce sobre as estrelas.

Ao analisar dados de 1.590 estrelas binárias eclipsantes que exibiam esse comportamento, a equipe encontrou 27 novos candidatos a planetas circumbinários. Ainda não sabemos detalhes físicos, como tamanho exato, mas o método abre portas. A velocidade radial, técnica que observa a oscilação entre estrela e planeta, pode ser a chave para confirmar esses achados. O impacto desse estudo é gigante porque pode, potencialmente, mais do que dobrar o número total de CBPs confirmados, que até agora era de apenas 18. O TESS, desde seu lançamento em 2018 como sucessor da missão Kepler, tem mostrado que essa estratégia de levantamento de todo o céu, e não apenas de um ponto fixo, é o caminho para encontrar mundos que antes nos escapavam.

Se o TESS está redesenhando o mapa da nossa vizinhança estelar, o Telescópio Espacial James Webb (JWST) está virando a mesa da cosmologia como um todo. Quando ele foi lançado no fim de 2021, a expectativa era de que ele conseguisse enxergar mais longe no tempo do que qualquer instrumento já criado. A ideia era flagrar as primeiras galáxias — pequenas, fracas e quimicamente simples, como manda o figurino do início do universo. Só que o que o Webb encontrou foi algo que ninguém esperava: galáxias brilhantes, massivas e que, de certa forma, parecem que não deveriam existir naquele estágio da cronologia cósmica.

Quatro anos depois, esses dados já não chocam apenas pela novidade, mas pela dificuldade de encaixá-los na narrativa padrão de como o universo começou. Estamos falando de galáxias como a MoM-z14, que o Webb detectou em 2025. Com um desvio para o vermelho de 14,44, ela data de apenas 280 milhões de anos após o Big Bang. Em termos cósmicos, isso é um piscar de olhos, algo como 2% da idade que aceitamos para o universo. Antes dela, o recordista era o JADES-GS-z14-0, que não é apenas uma mancha tênue, mas um objeto cinco vezes mais brilhante que o recordista anterior e com uma massa estimada em centenas de milhões de vezes a do Sol.

George Rieke, astrônomo do Observatório Steward da Universidade do Arizona, não esconde o espanto: ninguém imaginava ver galáxias tão brilhantes nesse desvio para o vermelho. Os modelos padrão de formação galáctica simplesmente não previam esse nível de complexidade, massa e brilho tão cedo. E o problema não para na estrutura; a química também desafia a lógica.

No início de 2025, detectaram oxigênio substancial na JADES-GS-z14-0. Pode parecer um detalhe técnico, mas é uma implicação brutal. Elementos pesados como o oxigênio não existiam no universo primordial; eles precisam ser forjados no interior de estrelas e liberados quando elas morrem em supernovas. Para encontrar tanto oxigênio assim, menos de 300 milhões de anos após o início de tudo, o universo precisaria ter feito um trabalho sobre-humano: criar uma primeira geração de estrelas, deixá-las viver, morrer, espalhar os elementos e formar uma segunda geração. Tudo isso em um tempo menor do que o necessário para uma árvore na Terra atingir a maturidade.

É um ciclo complexo demais para o tempo disponível, o que, nas palavras de Rieke, chega a ser desconcertante. Não é um caso isolado; diversos levantamentos do Webb mostram assinaturas químicas que indicam que essas galáxias já formavam estrelas há pelo menos 100 milhões de anos antes da observação. Isso empurra o surgimento das primeiras estrelas para um passado ainda mais remoto. Diante de tantas peças que não se encaixam, uma questão que cosmólogos sérios evitariam até pouco tempo atrás começou a ganhar espaço em artigos científicos: será que o universo é muito mais velho do que pensávamos? A hipótese de que ele tenha 26,7 bilhões de anos, quase o dobro da estimativa padrão, começa a circular como uma tentativa de explicar o impossível que estamos vendo no céu. A ciência segue deixando espaço para a dúvida, e talvez seja esse o caminho para entendermos o que, de fato, está acontecendo lá fora.