A Intel, outrora vista como uma gigante adormecida do Vale do Silício, protagonizou uma das reviravoltas mais impressionantes do último ano. Após disparar 84% em 2025, a empresa mantém o rali vivo no início de 2026, acumulando uma alta adicional de 27% logo nas primeiras semanas do ano. Agora, todas as atenções de Wall Street se voltam para o dia 22 de janeiro, data marcada para a divulgação dos resultados fiscais do quarto trimestre de 2025. O mercado, antes cético, parece ter comprado a tese de recuperação da companhia, impulsionada por uma combinação de liderança renovada, apoio governamental e avanços tecnológicos cruciais.

Liderança Agressiva e Apoio de Peso

Esse otimismo não é infundado e tem raízes profundas nas mudanças estruturais recentes. Sob a batuta do novo CEO Lip-Bu Tan, a Intel deixou de ser uma retardatária tecnológica para se tornar um dos casos de “turnaround” mais comentados do setor financeiro. Além da gestão agressiva, o suporte político e corporativo tem sido um divisor de águas. O governo Trump declarou recentemente que “os Estados Unidos têm orgulho de ser acionistas da Intel”, um endosso poderoso que reacendeu o interesse na empresa. Paralelamente, o investimento estratégico realizado pela Nvidia no final de 2025 trouxe não apenas capital vital após anos de gastos massivos em expansão, mas também a credibilidade de ter a companhia mais valiosa do mundo apostando na sua recuperação.

O Retorno Triunfal aos PCs

No front tecnológico, o lançamento da família de processadores Panther Lake na CES 2026 marca o início de uma nova era para a divisão de computadores pessoais. Sendo os primeiros chips de alto volume fabricados no processo Intel 18A, eles representam um salto significativo em eficiência e performance. As primeiras impressões sugerem que a Intel finalmente tem um vencedor em mãos: o Panther Lake promete vida útil de bateria excepcional e um avanço robusto em capacidades gráficas, podendo até equipar consoles portáteis de jogos. A manchete da PCWorld, “A Intel não é mais ruim”, resume o alívio e a empolgação do setor. Embora o roteiro futuro inclua o Nova Lake e o misterioso “Serpent Lake” — desenvolvido em parceria com a Nvidia —, é o Panther Lake que deve estancar a perda de participação de mercado para a AMD já em 2026.

Demanda Insaciável por Servidores

Outro motor de crescimento crucial é a explosão da demanda por infraestrutura de Inteligência Artificial. Não são apenas as GPUs e memórias que estão em falta; as CPUs de servidor da Intel também se tornaram itens de escassez global. A administração da empresa admitiu recentemente que, mesmo remanejando a capacidade de manufatura de PCs para servidores, não conseguirá atender totalmente aos pedidos na primeira metade de 2026. Analistas do KeyBanc elevaram a recomendação da ação justamente porque as famílias de chips Granite Rapids e Sierra Forest estão praticamente esgotadas. Com o setor de data centers aquecido, espera-se uma melhora substancial nas receitas e lucros desse segmento, à medida que a empresa migra para processos de fabricação mais modernos.

A Aposta Estratégica na Fundição

Olhando para o longo prazo, a estratégia de “foundry” — fabricar chips para terceiros — começa a mostrar potencial real de fechar a lacuna com a líder TSMC. O processo Intel 18A atingiu marcos importantes de rendimento num momento em que a demanda por manufatura avançada supera largamente a oferta global. Com a Samsung enfrentando dificuldades em seus processos mais recentes e a TSMC sendo conservadora na expansão de capital, a Intel surge como a alternativa viável para designers de chips que buscam capacidade. Rumores de que a Apple estaria avaliando o processo 18A reforçam a tese de que a divisão de fundição pode, finalmente, gerar receitas significativas com clientes externos.

Embora os lucros atuais da Intel ainda estejam deprimidos devido aos pesados investimentos em suas fábricas — o que torna a análise pelo índice Preço/Lucro (P/L) pouco eficaz no momento —, os múltiplos catalisadores indicam um caminho promissor. Com produtos competitivos, cofres reforçados e a confiança do mercado restaurada, a Intel parece pronta para provar que seus melhores dias não ficaram no passado.